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Após interferência de Trump na Justiça, promotores temem pressão da Casa Branca

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Roger Stone foi investigado no inquérito sobre a interferência russa nas eleições americanas de 2016 , comandado pelo promotor especial Robert Mueller . Em novembro do ano passado, ele foi condenado por mentir sob juramento e por tentar bloquear o depoimento de uma testemunha que exporia suas mentiras, usando até mesmo força física. Sua sentença seria formalmente anunciada na próxima quinta-feira. 

PUBLICIDADE Os promotores ouvidos temem também que o secretário de Justiça não apoie suas decisões em casos com repercussão política. Quando passou pelo cargo durante o governo de George W. Bush, Barr defendia interferência zero. Durante o governo Trump, como evidenciado pelo caso de Stone, as proteções caíram: o presidente foi ao Twitter parabenizá-lo por “tomar as rédeas de um caso que estava totalmente fora de controle” e exigir que os promotores se desculpassem

WASHINGTON — Após Donald Trump intervir na Justiça e provocar a demissão de quatro promotores responsáveis pelo processo contra o estrategista republicano Roger Stone, seu amigo de longa data, aqueles que trabalham com a aplicação da lei temem o que está por vir. Até agora, promotores americanos haviam assistido a mudanças significativas no Departamento de Justiça em resposta às políticas do presidente, mas o funcionamento da Justiça manteve-se praticamente inalterado pelo cenário político. O temor é que isso esteja com os dias contados.

Falando com o New York Times em condição de anonimato para evitar represálias, promotores disseram que vinham temendo trabalhar em ações que chamassem a atenção do presidente. Segundo eles, a polêmica envolvendo Stone só acirrou essas preocupações. Após o presidente reclamar da pena de sete a nove anos que seu amigo receberia, o secretário de Justiça, William Barr, interveio na terça-feira,  recomendando uma punição mais leve. Em repúdio, os quatro promotores responsáveis se afastaram do caso. Um deles pediu demissão.

— Em essência, a liderança do Departamento de Justiça interveio na sentença de um processo criminal politicamente sensível, revertendo a posição de promotores de carreira — disse David Laufman, advogado e ex-chefe de Contrainteligência do departamento.

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Roger Stone foi investigado no inquérito sobre a interferência russa nas eleições americanas de 2016 , comandado pelo promotor especial Robert Mueller . Em novembro do ano passado, ele foi condenado por mentir sob juramento e por tentar bloquear o depoimento de uma testemunha que exporia suas mentiras, usando até mesmo força física. Sua sentença seria formalmente anunciada na próxima quinta-feira. 

PUBLICIDADE Os promotores ouvidos temem também que o secretário de Justiça não apoie suas decisões em casos com repercussão política. Quando passou pelo cargo durante o governo de George W. Bush, Barr defendia interferência zero. Durante o governo Trump, como evidenciado pelo caso de Stone, as proteções caíram: o presidente foi ao Twitter parabenizá-lo por “tomar as rédeas de um caso que estava totalmente fora de controle” e exigir que os promotores se desculpassem.

Leia mais : Medos, injúrias e postagens no Twitter: um relato íntimo da Casa Branca sob Trump

Interferência Na quarta-feira, Barr aceitou testemunhar diante da Comissão de Justiça da Câmara, no próximo mês, sobre a investigação de Mueller. Embora o pedido da comissão tenha sido feito há um ano, o anúncio acontece no momento em que respostas para o caso de Stone são cobradas. Especialistas, no entanto, apontam que o presidente rasgou as regras que estabelecem os limites de seu cargo, criando, na melhor das hipóteses, uma percepção de que processos criminais estão sujeitos a interferências da Casa Branca.

Boa parte das aparentes interferências ocorrem no escritório da Procuradoria em Washington, responsável por uma variedade de casos políticos delicados, incluindo os de segurança nacional e corrupção. Entre eles, investigações sobre o ex-diretor do FBI James Comey, que teria vazado informações para repórteres, e o ex-conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn. Trump reclama que ambos não receberam o tratamento adequado.

PUBLICIDADE Até recentemente, quem comandava o escritório era a procuradora Jessie Liu, que supervisionou o processo de Stone e era vista com suspeitas por republicanos mais conservadores. Barr, no entanto, a retirou do cargo há algumas semanas, substituindo-a por um de suas ex-assistentes de longa data, Timothy Shea.

No fim do ano passado, Trump havia nomeado Liu para um cargo sênior no Tesouro, mas ela afirmou que continuaria na Procuradoria até que sua indicação fosse confirmada pelo Senado. Posteriormente, no entanto, ela e Barr concordaram que isso não aconteceria, levantando suspeitas de que alguma coisa pudesse estar acontecendo. A desconfiança aumentou mais após o secretário de Justiça nomear temporariamente Shea para seu lugar.

Shea, segundo o New York Times, queria uma sentença menor para Stone, mas desistiu após três dos quatro promotores ameaçarem abandonar o processo. Barr e seu vice, Jeffrey Rosen, no entanto, tomaram a decisão evitada pelo novato. Em paralelo, conforme o escândalo veio à tona, Trump cancelou a nomeação de Liu para o Departamento de Justiça.