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Como se mede hoje o sucesso de um artista da música?

Mauricio Botero Restrepo
Como se mede hoje o sucesso de um artista da música?

RIO – Houve um tempo na música em que uns poucos rankings eram a medida exata do sucesso. As listas de discos mais vendidos e canções mais tocadas pareciam tábuas da revelação, expressão de uma verdade inquestionável sobre quem realmente brilhava. Esse tempo passou. E os “top 10” já não dão conta . A ideia de sucesso fragmentou-se em mil.

Mauricio Botero Restrepo

— Não há mais um único modelo, como no passado. São vários — diz Juliano Polimeno, diretor executivo da Playax , empresa de análise de audiência no mercado da música. — O conceito de sucesso mudou.

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Não é difícil confirmar o que diz Polimeno. Hoje, a lista dos artistas mais tocados nas rádios do Brasil dificilmente comoveria um típico frequentador do festival Lollapalooza , mais ligado na vanguarda do pop e do rock. Ao mesmo tempo, o funk que domina serviços de streaming costuma passar longe das rádios (até pelas letras impublicáveis de muitos)

E o que funciona em redes sociais nem sempre se traduz no palco. Veja o caso do Iron Maiden. A banda britânica de heavy metal nunca chegou ao topo da Billboard , a mais importante parada de sucessos do mundo. Mas sempre aparece entre as favoritas quando o Rock in Rio pesquisa quais atrações o público quer ver. Neste ano, aliás, Bruce Dickinson, Eddie e companhia voltam pela quarta vez (tocam no dia 4 de outubro)

Rock in Rio: veja fotos dos preparativos para o festival Operários trabalham a todo gás nos últimos retoques da Cidade do Rock. Festival começa no próximo dia 27 Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Trabalho de acabamento no Espaço Favela Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Espaço Favela. Rock in Rio 2019 será realizado de 27 a 29 de setembro, e 3 a 6 de outubro, na Cidade do Rock, montada no Parque Olímpico Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Estrutura remete às comunidades cariocas e abrigará diversas atividades Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Montagem do Palco Sunset, por onde passarão atrações como Seal, Mano Brown, Titãs, Emicida, Slayer, Anthrax, entre outras Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Pular PUBLICIDADE Espaço Rock Street, que nesta edição receberá os encantos, cultura e ares do maior continente do mundo: a Ásia Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo A Rock Street já trouxe à Cidade do Rock temáticas como a energia do jazz de New Orleans e os ritmos e cores da África Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Últimos reparos estão sendo feitos para início do festival, no dia 27 de setembro Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Espaço Rock Street Ásia Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Preparativos para o Rock in Rio de 2019 Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Pular PUBLICIDADE Preparativos para o Rock in Rio de 2019 Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Estutura da montanha-russa Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo O New Dance Order, palco da música eletrônica Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Montagem do Palco Mundo Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Parte da Cidade do Rock, com o Palco Mundo ao fundo Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Pular PUBLICIDADE Capela que faz parte do cenário do espaço Rota 85, inspirada na rodovia mais famosa do mundo. Traz elementos que transportam o público para uma verdadeira viagem pela Route 66, em uma versão Rock in Rio Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo Ponto certo de muitas fotos, o painel com a hashtag Rock in Rio Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo A tradicional roda gigante Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo  

Em 2019, portanto, popularidade se mede no palco, nas visualizações no YouTube, no rádio, nas execuções em serviços de streaming, na venda de músicas, no número de seguidores em redes sociais. E além

Os cantores mais ouvidos do Brasil Veja o ranking dos artistas em cada plataforma Artista Geral Rádio Spotify YouTube Facebook Instagram 1 101 1 118 56 1 Marília Mendonça 2 234 2 25 186 2 Gusttavo Lima 4 229 4 110 609 3 Zé Neto e Cristiano 3 287 5 946 824 4 Jorge e Mateus 13 267 3 2.303 1.090 5 Matheus e Kauan 19 382 6 521 620 6 Dilsinho 20 105 10 522 49 7 Anitta 7 399 7 235 1.079 8 Maiara e Maraísa 6 434 17 346 286 9 Luan Santana 14 445 8 159 256 10 Wesley Safadão Fonte: Playax, 2019 Os cantores mais ouvidos do Brasil Veja o ranking dos artistas em cada plataforma Artista Geral 1 Marília Mendonça 2 Gusttavo Lima 3 Zé Neto e Cristiano 4 Jorge e Mateus 5 Matheus e Kauan 6 Dilsinho 7 Anitta 8 Maiara e Maraísa 9 Luan Santana 10 Wesley Safadão Artista Rádio 1 Marília Mendonça 2 Gusttavo Lima 4 Zé Neto e Cristiano 3 Jorge e Mateus 13 Matheus e Kauan 19 Dilsinho 20 Anitta 7 Maiara e Maraísa 6 Luan Santana 14 Wesley Safadão Artista Spotify 101 Marília Mendonça 234 Gusttavo Lima 229 Zé Neto e Cristiano 287 Jorge e Mateus 267 Matheus e Kauan 382 Dilsinho 105 Anitta 399 Maiara e Maraísa 434 Luan Santana 445 Wesley Safadão Artista YouTube 1 Marília Mendonça 2 Gusttavo Lima 4 Zé Neto e Cristiano 5 Jorge e Mateus 3 Matheus e Kauan 6 Dilsinho 10 Anitta 7 Maiara e Maraísa 17 Luan Santana 8 Wesley Safadão Artista Facebook 118 Marília Mendonça 25 Gusttavo Lima 110 Zé Neto e Cristiano 946 Jorge e Mateus 2.303 Matheus e Kauan 521 Dilsinho 522 Anitta 235 Maiara e Maraísa 346 Luan Santana 159 Wesley Safadão Artista Instagram 56 Marília Mendonça 186 Gusttavo Lima 609 Zé Neto e Cristiano 824 Jorge e Mateus 1.090 Matheus e Kauan 620 Dilsinho 49 Anitta 1.079 Maiara e Maraísa 286 Luan Santana 256 Wesley Safadão Fonte: Playax, 2019

Nos nossos levantamentos, consideramos uma variável importante, que é o tempo, o que a indústria muitas vezes desconsidera — diz Polimeno. — Você procura um top 5, um top 10, mas não um “top permanência”, ou seja, o artista que mantém uma média constante de shows e vendas, mas não está necessariamente no topo. Essa é uma forma de sucesso que muitas vezes escapa das métricas tradicionais

PUBLICIDADE Quem se lembra de MC Loma? O cruzamento de dados revela, por exemplo, casos marcantes de “ascensão e queda”, em que o artista se transforma num fenômeno e pouco depois some com a mesma velocidade com que apareceu. Quem se lembra de MC Loma e as Gêmeas Lacração , com seu hit “Envolvimento”? Em 2018, o trio pernambucano surgiu, lacrou e sumiu

Caminho diferente teve o pagodeiro Ferrugem, que cresce em ritmo contínuo. E Gilberto Gil, que mesmo não estando no topo mantém uma base de ouvintes tão fiel que se mantém a mesma quando ele lança ou deixa de lançar discos

O cantor Gilberto Gil Foto: Divulgação/Ricardo Nunes  

Atualmente, há muitas métricas em todos os segmentos. É uma rede muito complexa — reconhece Marcelo Castello Branco, CEO da União Brasileira de Compostores (UBC) e ex-presidente da Universal Music. — Antes, o mainstream e o underground eram algo muito óbvio. Hoje, você pode passar cinco minutos no mainstream e voltar para o underground, todas essas caracterizações estão sendo muito questionadas

Até mesmo o hit está na berlinda. Nas últimas décadas, era ele que movia o mercado. Hoje, seu ciclo de vida é tão curto que há pouca chance de se tornar uma música “de catálogo”, ou seja, uma faixa que vá ser ouvida daqui a alguns anos, ou até meses. Se por um lado a internet democratizou o “holofote”, dando visibilidade a um número muito maior de músicos, por outro ela gerou um efeito colateral

PUBLICIDADE — O público abandona o artista muito rapidamente. Ou você tem uma história para contar e o público cresce com você, ou você some. A overdose de entretenimento banalizou a música — diz Castello Branco, que lembra como isso funcionou de modo diferente para a geração de artistas como Zeca Pagodinho. — No mundo do produto físico você tinha que lançar disco todo ano. Os artistas dessa geração e alguns dos anos 1990 conseguiram construir um catálogo de canções e um histórico de comportamento que faz com que seus fãs prestigiem seus shows até hoje

Desabafo: ‘Não consigo ir mais ao morro’, diz Zeca Pagodinho

Medina: mística era maior antes Roberto Medina, que há 35 anos produz o Rock in Rio, atesta mesmo uma mudança simbólica na ideia de sucesso:

Lá atrás havia uma mística muito maior sobre as bandas. Era como se elas fossem extraterrestres. As pessoas no primeiro Rock in Rio pensavam: “Não é possível que eu esteja vendo isso!”. Hoje você acompanha a vida deles pelas redes sociais, isso quebra um pouco da mágica

O processo de escolha das atrações do Rock in Rio mostra como as coisas mudaram. Além da pesquisa realizada a cada edição do festival para definir o que o público quer ver na próxima, Roberto Medina consulta o comportamento dos artistas nas diferentes plataformas de streaming e nas rádios. Mas um dado que era fundamental há alguns anos se tornou obsoleto:

PUBLICIDADEVenda de disco físico não consulto mais — conta o empresário. — Mas é bom lembrar que um cara extremamente forte de streaming pode não ter um show bacana, não ter uma performance de palco tão boa quanto seus números. Tem duas músicas do cacete, mas será que ele aguenta duas horas de show?

‘Acabou a receita de bolo da indústria’ Ainda não há no Brasil uma sistematização dos números de shows como medida de sucesso. Não existe, afinal, quem reúna informações sobre quantidade de apresentações e público de cada artista. A Playax estuda fazer isso. Hoje, a empresa compila dados de streaming, rádio e redes sociais, dando a eles pesos específicos para classificar a popularidade dos artistas. Criou, assim, um ranking mais complexo, que une real e virtual. Mas o que está em jogo na hora de “eleger” um artista depende muito do objetivo de quem pesquisa o mercado, claro

— A artista mais popular do Brasil hoje pelo nosso índice, cruzando essas várias medições, é a Marília Mendonça. Mas, se você é dono de uma casa de shows de rock de médio porte em Belo Horizonte, ela não é a melhor artista pra você — explica Juliano Polimeno, da Playax, que tem entre seus clientes o programa “Só toca top”, da TV Globo

PUBLICIDADE A cantora Marília Mendonça em cena do especial de TV 'Todos os Cantos' Foto: Divulgação/Flaney Gonzallez Os novos dados ajudam, portanto, a pensar a audiência de acordo com o gosto do freguês. Como hoje o público consome música em muitas janelas diferentes, o que explode em sua timeline na internet, pode nem aparecer na “bolha” do vizinho. E vice-versa. Não existe regra única para o sucesso, como nota Paulo Lima, presidente da Universal Music do Brasil:

— O volume da produção musical aumentou muito, porque é muito fácil hoje fazer música, e o consumo é bem mais rápido do que antigamente. Essa diversidade acabou com a receita de bolo da indústria fonográfica

Um tiro de canhão Paulo aponta o caso de artistas como o cantor pop-revelação Jão, que vai bem no digital, atrai público para os shows e tem até música em novela (“Dilema”, da cantora Malía, com participação dele, em “Malhação”). Mesmo assim, ele ainda não toca no rádio (“é o nosso desafio agora”). Em situação parecida estava o sertanejo Gabriel Diniz quando chegou à Universal. Depois, conquistou outras fronteiras. Autor de “Jenifer”, ele estava no auge quando morreu, em maio deste ano, num acidente de avião

Queremos usar da melhor forma possível todas plataformas. O artista de sucesso é o que tem boa performance bem em todas elas —diz o presidente da gravadora

PUBLICIDADE Gabriel Diniz também é usado como exemplo por Bruno Levinson, roteirista final de “Só toca top”:

— O Gabriel era um cara que tinha 200 milhões de visualizações no YouTube, só que aqui no Sudeste a gente não conhecia. Aí a gente apostou e o trouxe para a TV aberta, que é um tiro de canhão, e ele virou um sucesso nacional. Mas quem determina é o público, a gente só potencializa

Para Eduardo Bonadio, diretor corporativo da empresa de pesquisas Crowley, que mede a audiência em rádios, o meio ainda é o grande curador do que está no mercado:

Ele faz apostas, aponta tendências, movimenta toda a cadeia. Impulsiona e massifica o artista. Para onde você correr, você vai achar o rádio

Hoje, porém, o próprio rádio se baseia nas paradas do streaming, como lembra Bonadio, em busca de uma programação certeira para seu público-alvo

A nova fita cassete As redes sociais entram obviamente na conta, embora com muitas complexidades. Ana Kley, especialista em marketing para influenciadores digitais, pondera que o YouTube “é a nova fita cassete que os artistas costumavam entregar nas rádios”. É onde tudo começa, e onde, a partir do primeiro milhão de visualizações, os empresários de shows, as plataformas de streaming e as emissoras começam a ir atrás do novo astro. Twitter, Facebook e Instagram têm papel significativo na coleta de fãs

PUBLICIDADEPara os contratantes de shows é bom saber que o artista tem uma rede legal — explica Ana. — A Anitta faz isso muito bem, ela está presente, divulgando sua vida. A Marília Mendonça atua muito bem no Twitter, o Luan Santana responde aos fãs

Com tantas ferramentas para medir o sucesso e tantas vitrines para o artista aparecer, Marcelo Castello Branco chama a atenção para algo que, a seu ver, não pode sumir de vista:

— A observação das métricas não deve contaminar o artista. No fim, a criação é sempre o mais importante

Novos rankings para novos tempos A pedido do GLOBO, a Playax (empresa de análise de audiência da música que cruza dados de rádio, streaming e redes sociais) fez um levantamento do top 3 de diferentes modelos de sucesso, segundo classificação criada por ela. Os dados se referem ao período que vem do início deste ano até agora

‘Crescimento contínuo’: A cantora Ludmilla (abaixo) é a artista de maior destaque que se enquadra neste caso, seguida da dupla sertaneja Diego e Victor Hugo e do cantor e compositor de samba Dilsinho. Como o nome explica, esse modelo de sucesso indica aumento de popularidade estável

 

Ludmilla Foto: Divulgação  

PUBLICIDADE ‘Ascensão e queda’ : Neste modelo de sucesso, de artista que explode e depois perde força com a mesma rapidez, o funkeiro MC Livinho (abaixo) é o principal nome. Também do funk, Dennis DJ vem logo atrás

MC Livinho Foto: Divulgação  

‘Estável’: Entre os artistas que mantiveram o mesmo nível de popularidade em todo o período avaliado, o maior destaque é o coletivo de rap Pineapple StormTv, da série de hits “Poesia Acústica”. Na sequência, vêm o funkeiro paulista Mc Don Juan e a dupla fofolk Anavitória (foto). O duo pop Anavitória Foto: Divulgação/Breno Galtier