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Costa vs Cristas. Um “enorme fosso” separa-os, mas Assunção é que teve de se explicar

Costa vs Cristas. Um "enorme fosso" separa-os, mas Assunção é que teve de se explicar

E ao nono debate pré-legislativas, o país assistiu, finalmente… a um verdadeiro debate esquerda-direita. Assunção Cristas e António Costa sentaram-se frente a frente na TVI para discutir o “enorme fosso” que os separa e, ao contrário do que tem acontecido nos confrontos, assumiram riscos e jogaram ao ataque. Com Costa a fintar a adversária: o primeiro-ministro, armado com o programa do CDS na mão, conseguiu logo de início estabelecer os temas e acabou por montar uma armadilha em que levou Cristas, obrigada a defender-se, a cair. Uma e outra vez.

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Ora a escolha dos temas não foi, claro, inocente – Costa escolheu pontos particularmente incómodos, controversos até, para os centristas e deixou que Cristas passasse toda a primeira debate do confronto ocupada a explicar-se, sem hipótese de encostar o adversário às cordas (até mesmo em termos de tempos: Cristas falou quase sempre mais do que Costa, o que significou que, sempre que quis tomar a iniciativa e apresentar os temas que lhe interessavam, já não teve hipótese de o fazer).

Carmelo De Grazia Suárez

A única concordância dos dois foi em discordar: logo no início do debate, ambos assumiram que o que separa PS e CDS neste momento é “um enorme fosso” que leva a que os partidos fiquem “nos antípodas um do outro” – uma diferença que tem sido, aliás, pedra basilar no discurso dos centristas, que se apresentam mesmo como a única alternativa ao PS de Costa. Depois, passaram a explicar em que se traduz, então, esse mundo de diferenças. E foi então que Costa tomou a dianteira – e chamou ao debate propostas em que saberia que Cristas seria obrigada a demorar-se

Primeiro, uma das ideias mais polémicas que o CDS trouxe a jogo nestes meses pré-eleitorais: a proposta que permite que alunos que não tiveram média para entrar na universidade pública possam pagar o custo real do curso, uma solução que já existe para alunos estrangeiros de fora da União Europeia. “Como se o dinheiro pagasse tudo”, começou por atacar Costa. Com Cristas a agarrar o exemplo de jovens que têm médias altas mas que não entram nos cursos por poucas décimas, o primeiro-ministro insistiu: “Uns precisam de notas, outros só precisam de dinheiro”. “É valorizar o mérito”, respondeu a líder dos democratas-cristãos

A mesma lógica para os dois outros temas que Costa foi buscar ao programa dos centristas: o “direito à propriedade” no centro das políticas de Habitação – tema que lhe permitiu atacar a ‘lei Cristas’, ou lei das rendas, a que atribui responsabilidades por uma “onda de despejos e especulação imobiliária como não há memória” – e o regresso do quociente familiar. Para Costa, tudo se resumiu a “uma visão profundamente injusta da sociedade”. Para Cristas, uma série de argumentos que precisou de desarmadilhar em tempo recorde – garantindo que a lei das rendas era “equilibrada” e que abriu caminho ao desenvolvimento de cidades como Lisboa e o Porto, mas também que o quociente familiar é o mecanismo mais amigo das famílias. Mas sempre a jogar um jogo cujas regras tinham sido, à partida, definidas por Costa

Um choque fiscal “aritmeticamente impossível”? O assunto que dominou a segunda metade do debate poderia ter ajudado a líder do CDS a recuperar, ou não fosse o dos impostos, domínio em que os centristas prometem um verdadeiro choque fiscal (com uma redução de 15% na taxa média de IVA e um IRC ao nível do irlandês). O problema foi que, acusando o primeiro-ministro de ser o responsável pela maior carga fiscal de sempre – um argumento em que o CDS se tem apoiado ao longo de toda a legislatura – Cristas ouviu Costa justificar o aumento das receitas fiscais com a melhoria do estado da economia, mas respondeu apenas com o exemplo do aumento do imposto sobre os combustíveis, com pouco tempo para apostar em ataques, por exemplo, aos “piores serviços públicos de sempre”, responsabilidade que apontou ao PS

Quanto à proposta do CDS para a redução fiscal – que promete financiar com 60% do excedente orçamental previsto pelo Governo para os próximos anos -, Costa trazia as contas feitas de forma a argumentar que esse número não cobrirá “nem um quinto” da redução de impostos que o CDS quer fazer. “Conduziria a um desequilíbrio brutal das nossas contas. Significaria uma quebra de 5 mil milhões das receitas”. Uma conta que fica, para já, por explicar – e que é dificilmente rebatível com as contas do PS, uma vez que o partido as apresentou em detalhe muito menor do que fez há quatro anos

O argumento do choque fiscal “aritmeticamente impossível de cumprir” serviu a Costa para rematar a imagem de líder do partido das contas certas, do partido que se compromete a não entrar “em aventuras que se traduzam ou num enorme desequilíbrio das contas ou num enorme aumento de impostos” – por outras palavras, esvaziando um discurso que poderia ser mais naturalmente agarrado pela direita

A Cristas sobrou um apelo, tendo em conta as sondagens que lhe apontam resultados historicamente baixos e que podem colocar em causa a sua liderança: “Para as pessoas do centro-direita que entendem que o jogo está feito, é preciso dizer que podem acordar no dia 7 com um país dois terços à esquerda”. O papão das “esquerdas radicais” foi agitado quando o apito final soou. Foi o último esforço para garantir que a direita não fica em casa no dia 6 de outubro e entrega os pontos ao PS, que as sondagens colocam à beira da maioria absoluta, sem dar luta